Bastam um ou dois cravos-da-índia para reconhecer um pot-au-feu, um vinho quente ou um pão de mel. Esse temperinho em forma de prego também tem uma longa fama na farmácia caseira: nossas avós mordiam um para acalmar uma dor de dente. Neste guia, reunimos o que se sabe sobre os benefícios do cravo-da-índia, o que a ciência diz sobre o eugenol, seu óleo essencial e suas precauções, e depois vamos para a cozinha, do pot-au-feu ao vinho quente, sem esquecer a famosa laranja cravejada de Natal.
Cravo-da-índia: o que é exatamente?
O cravo-da-índia é o botão floral seco do craveiro-da-índia (Syzygium aromaticum), uma árvore tropical sempre verde da família das Mirtáceas, como o eucalipto e a goiabeira. Os botões são colhidos à mão pouco antes de abrir, quando passam do verde ao rosado, e depois secos ao sol: ficam marrom-escuros e ganham a forma de pequeno prego, com uma haste e uma cabeça redonda. Aliás, o nome francês, clou de girofle, vem do latim clavus, “prego”.
O craveiro é originário das Ilhas Molucas, na Indonésia, as famosas “ilhas das especiarias” disputadas por portugueses e holandeses. No século XVIII, o francês Pierre Poivre conseguiu tirar mudas de lá para aclimatá-las na Ilha Maurício e depois na Ilha da Reunião. Hoje, a Indonésia continua sendo a maior produtora mundial, mas consome quase toda a colheita, em especial nos seus cigarros de cravo. Madagascar é o maior exportador, à frente de Comores e da Tanzânia (Zanzibar). No Brasil, o cravo também é cultivado, sobretudo no sul da Bahia.
Eugenol, a molécula-chave do cravo-da-índia
O cravo-da-índia é um dos temperos mais ricos em óleo essencial: ele pode representar de 15 a 20 % do seu peso. Esse óleo é composto em grande maioria de eugenol, uma molécula de perfume quente e picante que dá ao cravo seu sabor tão reconhecível.
O eugenol tem várias propriedades bem documentadas em laboratório: é anestésico local, ou seja, adormece levemente os nervos ao contato, antisséptico, porque freia o crescimento de muitas bactérias e fungos, e antioxidante. Os dentistas o usam há mais de um século: ele ainda aparece em alguns curativos dentários provisórios, misturado com óxido de zinco. O cravo-da-índia também está no topo dos alimentos mais ricos em polifenóis, antioxidantes naturais, segundo o banco de dados científico Phenol-Explorer. Atenção, porém: o eugenol se torna tóxico em dose alta, voltaremos a isso mais abaixo.
Os benefícios do cravo-da-índia
O cravo-da-índia é usado há séculos nas medicinas tradicionais chinesa, indiana e europeia. A pesquisa moderna confirma sobretudo seus efeitos locais, na boca, graças ao eugenol. Para os outros usos, os estudos foram feitos principalmente em laboratório ou em animais, e as provas em humanos ainda são limitadas. Lembramos que, na Europa, nenhuma alegação de saúde é autorizada para o cravo-da-índia.
Cravo-da-índia e digestão
Como o cardamomo, o gengibre ou o cominho, o cravo-da-índia é tradicionalmente considerado um tempero carminativo: ajudaria a limitar o inchaço e os gases, e a acalmar pequenas cólicas depois de uma refeição farta. Não é por acaso que ele perfuma pratos longos e ricos como o pot-au-feu, o chucrute ou os pratos com molho. As provas clínicas são poucas, mas uma xícara de chá depois da refeição continua sendo um hábito agradável para a maioria das pessoas.
Um tempero antioxidante
Sua riqueza excepcional em polifenóis faz do cravo-da-índia um objeto de estudo por seus efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios. Esses efeitos foram observados sobretudo em laboratório, com extratos concentrados. No prato, consumimos quantidades muito pequenas: o cravo faz parte de uma alimentação variada e rica em temperos, sem ser um remédio sozinho.
Cravo-da-índia para dor de dente
É o remédio caseiro mais famoso, e ele tem uma base científica real: o eugenol anestesia levemente a área dolorida e limita o desenvolvimento das bactérias. Veja como usá-lo para quebrar o galho:
- Com um cravo inteiro: coloque um cravo-da-índia junto ao dente dolorido, entre a bochecha e a gengiva, e deixe amolecer por alguns minutos mordiscando de leve para liberar o óleo. Surge uma leve sensação de dormência.
- Com óleo essencial: dilua uma gota de óleo essencial de cravo-da-índia em algumas gotas de óleo vegetal (azeite, por exemplo), umedeça um cotonete e passe na gengiva ao redor do dente, sem engolir.
- Como enxaguante bucal: deixe 3 ou 4 cravos em infusão numa xícara de água quente, espere amornar e enxágue a boca.
Esses truques aliviam por algumas horas, enquanto você espera a consulta com o dentista. Eles não tratam a causa: uma dor de dente muitas vezes indica cárie, infecção ou abscesso, que precisam ser tratados. Nunca aplique óleo essencial puro na gengiva: ele pode causar queimadura.
Chá de cravo-da-índia e seus benefícios
O chá de cravo-da-índia é quente, perfumado e levemente picante. Costuma ser tomado depois da refeição pela fama digestiva, ou no inverno como bebida reconfortante.
Para 1 xícara:
- 3 cravos-da-índia
- 250 ml de água
- Opcional: uma rodela de laranja ou de limão, uma fatia fina de gengibre, um pedaço de canela em pau, uma colher (chá) de mel
Preparo: amasse levemente os cravos com a lateral de uma faca. Aqueça a água até começar a ferver, despeje sobre os cravos, tampe e deixe em infusão por 10 minutos. Coe, junte o mel ou a fruta cítrica e beba quente. Com moderação: uma ou duas xícaras por dia são mais que suficientes.
Como usar o cravo-da-índia?
O cravo-da-índia é um dos temperos mais potentes. A regra de ouro: usar pouco. Um ou dois cravos bastam para perfumar um prato para quatro a seis pessoas; mais que isso, ele domina todo o resto e dá um sabor acre, quase de remédio.
- Inteiro, ele perfuma caldos, pratos de cozimento lento, marinadas, caldas, arroz e bebidas quentes. Como é duro e desagradável de mastigar, costuma ser espetado numa cebola ou fechado numa trouxinha de gaze para ser retirado facilmente antes de servir.
- Moído, entra na confeitaria (pão de mel, biscoitos de Natal, bolo de cenoura), em misturas de temperos como o quatre-épices, o garam masala ou o cinco especiarias chinês, e nos patês de forno.
Combina especialmente bem com canela, noz-moscada, gengibre, laranja, maçã, presunto, carne de porco, carne de caça e repolho roxo.
Cravo-da-índia em pó ou inteiro?
Nosso conselho: compre o cravo-da-índia inteiro. Ele conserva o óleo essencial, e portanto o perfume, por um a dois anos. Em pó, perde boa parte do aroma em poucos meses. Para a confeitaria, moa você mesmo alguns cravos no moedor de café ou no pilão, na hora. A tabela abaixo resume as três formas encontradas no comércio.
| Forma | Usos | Conservação | Precauções |
|---|---|---|---|
| Cravo inteiro | Caldos, pratos de cozimento lento, vinho quente, chá, dor de dente | 1 a 2 anos em pote fechado | Retirar antes de servir; 1 ou 2 cravos bastam |
| Pó | Confeitaria, pão de mel, misturas de temperos, patês | Cerca de 6 meses | Uma ponta de faca basta, muito potente |
| Óleo essencial | Cuidados dentários pontuais, difusão, repelente | Vários anos, longe da luz | Nunca puro na pele; não engolir; proibido para crianças e na gravidez |
Um testezinho para avaliar o frescor dos seus cravos: aperte a cabeça de um cravo com a unha. Um cravo de qualidade solta um pouco de óleo e tem cheiro forte. Você também pode jogar alguns num copo d’água: os cravos frescos, ricos em óleo, afundam ou boiam de cabeça para cima, enquanto os velhos e secos boiam deitados.
Cravo-da-índia no pot-au-feu
É o gesto mais clássico da cozinha francesa: a cebola cravejada. Descasca-se uma cebola, espetam-se nela dois ou três cravos-da-índia e ela vai para o caldo com o bouquet garni. O cravo perfuma discretamente o caldo durante as longas horas de cozimento e sai facilmente no fim, junto com a cebola, sem o risco de alguém morder um cravo.
Esse truque vale para o pot-au-feu, mas também para a blanquette de vitela, a galinha cozida, o bœuf bourguignon, a potée, o chucrute ou uma simples sopa de legumes. Na cozinha do dia a dia, também dá para pôr um cravo na água do arroz, numa compota de maçã ou num purê de abóbora.
Receita de vinho quente com cravo-da-índia

Impossível imaginar uma feira de Natal europeia sem o cheiro do vinho quente, e o cravo-da-índia é um dos seus pilares, ao lado da canela e da laranja. No Brasil, ele também é estrela do quentão das festas juninas.
Para 6 copos:
- 1 garrafa de vinho tinto (750 ml), de preferência frutado e pouco tânico
- 1 laranja orgânica e 1 limão orgânico
- 4 cravos-da-índia
- 2 paus de canela e 1 estrela de anis-estrelado
- 2 bagens de cardamomo amassadas e 1 pitada de noz-moscada ralada (opcional)
- 80 a 100 g de açúcar ou de mel, a gosto
Preparo: corte a laranja e o limão em rodelas. Espete os cravos em algumas rodelas de laranja para encontrá-los facilmente. Coloque o vinho, o açúcar, as frutas e os temperos numa panela e aqueça devagar, sem nunca deixar ferver, por 15 a 20 minutos. Deixe descansar fora do fogo por 10 minutos, coe e sirva bem quente. Para uma versão sem álcool, troque o vinho por suco de uva tinto ou por uma mistura de suco de maçã e chá.
Laranja cravejada de cravos-da-índia (pomander)

É uma decoração de Natal tradicional, que perfuma a casa por semanas. Ela descende dos pomanders da Idade Média, pequenas bolas perfumadas que se levavam junto ao corpo para se proteger dos maus cheiros.
- Escolha uma laranja bem firme, de preferência orgânica, e um bom punhado de cravos-da-índia.
- Espete os cravos na casca, em fileiras, espirais ou desenhos. Para facilitar, faça os furos antes com um palito.
- Se quiser, role a laranja numa mistura de canela e noz-moscada em pó.
- Amarre uma fita bonita em volta da laranja para pendurá-la, ou coloque-a numa fruteira.
- Deixe secar num lugar seco e arejado. Em algumas semanas, ela endurece, encolhe e depois se conserva por muito tempo.
Quanto mais coberta de cravos, melhor a laranja seca sem mofar. O cravo e a laranja soltam um perfume quente e agradável, mas uma laranja cravejada não substitui uma boa ventilação para renovar o ar da casa.
Cravo-da-índia contra mosquitos
O truque circula todo verão: espetar cravos-da-índia em meio limão e deixá-lo na mesa da varanda. E funciona mesmo? Estudos em laboratório mostraram que o óleo essencial de cravo-da-índia tem um efeito repelente real contra mosquitos, às vezes comparável ao de certos repelentes clássicos, mas por pouco tempo, da ordem de uma a duas horas. Já o limão com cravos libera muito menos eugenol: o efeito é fraco e bem localizado.
Nossa opinião: o limão com cravos é um truque simpático para um happy hour na varanda, mas não protege de forma eficaz. Se você mora ou viaja numa região onde os mosquitos transmitem doenças (dengue, malária, chikungunya), use um repelente recomendado pelas autoridades de saúde. E nunca aplique o óleo essencial puro na pele.
Óleo essencial de cravo-da-índia
Obtido pela destilação dos cravos, o óleo essencial de cravo-da-índia contém até 80 % de eugenol, ou até mais. É um dos óleos essenciais mais potentes, e também um dos mais irritantes. Seus usos comuns:
- Cuidados dentários pontuais, sempre diluído num óleo vegetal, como explicado acima.
- Difusão no ambiente, em pequena quantidade e misturado com óleos mais suaves como o de laranja-doce, para um clima aconchegante no inverno.
- Repelente contra insetos, diluído, num difusor ou num tecido, mas não diretamente na pele.
Ele não deve ser ingerido sem orientação de um médico ou de um farmacêutico com formação em aromaterapia, e deve ficar fora do alcance das crianças: em crianças pequenas, a ingestão de alguns mililitros de óleo essencial de cravo pode causar lesão grave do fígado e convulsões. Em caso de ingestão acidental no Brasil, ligue para o Disque-Intoxicação (0800 722 6001) ou para o SAMU (192).
Cravo-da-índia: contraindicações e precauções
Em quantidades culinárias, o cravo-da-índia serve para quase todo mundo. As precauções dizem respeito sobretudo aos chás repetidos, aos suplementos e ao óleo essencial:
- Dose: os especialistas da OMS e da FAO fixaram uma ingestão diária aceitável de eugenol de 2,5 mg por quilo de peso corporal. As quantidades usadas na cozinha estão muito longe disso, mas não convém multiplicar chás concentrados ao longo do dia.
- Anticoagulantes e cirurgia: o eugenol pode afinar o sangue. Se você toma anticoagulante ou antiagregante plaquetário, ou se tem uma cirurgia marcada, peça a orientação do seu médico antes de qualquer consumo regular fora da cozinha.
- Fígado: em dose alta, o eugenol é tóxico para o fígado. Pessoas com doença hepática devem evitar chás repetidos e o óleo essencial.
- Diabetes: o cravo poderia baixar levemente a glicemia; por precaução, converse com seu médico se você faz tratamento.
- Crianças: nada de óleo essencial em crianças, e nunca automedicação com cravo nos bem pequenos.
- Boca e pele: o óleo essencial puro pode queimar a gengiva e irritar a pele. Dilua-o sempre.
Cravo-da-índia na gravidez
Durante a gravidez, o cravo-da-índia na cozinha, nas doses habituais, não traz problema conhecido: um cravo no cozido ou uma pitada num pão de mel é seguro. Por outro lado, o óleo essencial de cravo-da-índia é desaconselhado durante toda a gravidez e a amamentação, tanto por via oral quanto na pele, assim como os suplementos. Para um chá regular ou uma dor de dente na gravidez, peça orientação ao seu médico, à sua parteira ou ao seu dentista.
Como substituir o cravo-da-índia?
Acabou o cravo do armário? Veja as melhores soluções:
- A pimenta-da-jamaica (allspice): é o melhor substituto, porque o sabor lembra ao mesmo tempo cravo, canela e noz-moscada. Troque um cravo por uma ou duas bagas.
- A noz-moscada: uma pitadinha de noz-moscada ralada num caldo, num molho bechamel ou num prato de cozimento lento.
- A canela: ideal nas sobremesas, nas compotas e no vinho quente.
- O quatre-épices: essa mistura francesa já contém cravo, com pimenta-do-reino, noz-moscada e canela ou gengibre; quebra muito bem o galho na confeitaria e nos patês.
Como conservar o cravo-da-índia
O cravo-da-índia teme a luz, o calor e a umidade. Guarde-o num pote hermético, de vidro escuro ou de metal, num armário fresco, longe do fogão. Inteiro, fica perfumado por um a dois anos; em pó, é melhor dentro de seis meses. Um cravo que quase não tem cheiro ao ser amassado já passou do ponto.
O cravo-da-índia e seus temperos parceiros
O cravo-da-índia gosta de companhia. No vinho quente, encontra a canela e o cardamomo; num chai ou num pão de mel, junta-se ao gengibre; num garam masala, ao cominho e à pimenta-do-reino. Para saber tudo sobre esses temperos, descubra também nossos guias da páprica, do açafrão verdadeiro e dos benefícios da cúrcuma. Sem esquecer a noz-moscada, rainha do molho bechamel e do purê. E para dar um toque suave aos seus pratos, descubra a pimenta de Espelette, o orgulho do País Basco. Por fim, para uma nota cítrica e suave, experimente as sementes de coentro, ideais em legumes à grega. E para os seus curries, conheça o feno-grego, com aroma de xarope de bordo. E para o vinho quente e as sobremesas de inverno, lembre-se do anis-estrelado, a estrela das especiarias.
Perguntas frequentes sobre o cravo-da-índia
Dá para comer um cravo-da-índia inteiro?
Não é perigoso, mas é muito forte e desagradável de mastigar. Na maioria das vezes, ele é retirado do prato antes de servir.
Quantos cravos-da-índia para um prato?
Um ou dois cravos para um prato de quatro a seis pessoas, três para um grande pot-au-feu. Para um chá, três cravos por xícara bastam.
O cravo-da-índia é eficaz contra o mau hálito?
Mastigar um cravo refresca o hálito por um tempo, graças ao perfume intenso e ao efeito antibacteriano do eugenol. É um truque complementar, que não substitui a escovação dos dentes.
O cravo-da-índia vence?
Ele não se torna perigoso, mas perde pouco a pouco o óleo e o perfume. Faça o teste da unha: se não soltar mais óleo, troque.
Este artigo tem finalidade de informação geral e não substitui a orientação de um médico, de um dentista, de uma parteira ou de um farmacêutico.


